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"É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem de desejos de razão. O importante é aproveitar e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver." (Gabriel Garcia Marquez)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O MEU AMOR




Já fiz muitas declarações de amor! Umas resultaram em cheio outras nem por isso. Muitas vezes, as palavras que me ficaram atravessadas na garganta, que nunca chegaram a sair, foram as que mais tarde senti que fizeram falta. O meu amor, foi sendo declarado a cada nova investida, o meu amor é diferente, foi diferente, é esquisito, vive de sonhos perdidos e até desperdiçados, vive de camas desfeitas, algumas nunca abertas e parece uma máquina avariada, que trabalha aos solavancos, como se os tubos estivessem entupidos e não deixassem passar a gasolina.
O meu amor é estúpido, sem nexo, incompreensível, tão depressa te deixa pendurada à espera, como te procura aflito, por entre estradas e enseadas. O meu amor parece quase louco, arranha, grita por mais, desdenha, é desleixado por vezes, mas tão compreensivo quando lhe apetece, tão cheio de simpatia quando te quer, tão previsível quando ousado e tão paciente quando te espera a cada novo anoitecer.


O meu amor às vezes morre, segue o caminho de cada estação do ano que passou, desaparece de cena, mas sempre volta a ressuscitar, só que mesmo ressuscitado, vive moribundo num sofá que me aceita o corpo cansado, onde deambulo dormindo, vendo aos bocados a televisão que não me ouve, e sentindo os estalidos da lenha a arder na lareira que se vai apagando, precisando de um abanão, às vezes forte, num apelo de ida para a cama.

O meu amor é saltitante, pulula pelos pensamentos, o meu amor é egoísta, outras vezes oportunista, às vezes nada romântico, outras exagerado, morde-te se o acarinhas e beija-te quando o desprezas, procura-te quando não o queres e deita-te fora quando precisas. Sabes, o meu amor nasceu ao contrário tal como eu, de trás para a frente, daí esta confusão que se instala, quando é preciso decidir.

O meu amor nunca mais aprende, quer-te quando não pode, não te quer quando devia, solta-te quando te devia prender e prende-te quando te devia soltar. O meu amor é feio, estraga quando devia poupar, mas também é tão bonito que te enche de música os sonhos, também cheira a rosas e a cravos e tem um sabor a mel.

O meu amor respira por ti, sonha por ti, luta por ti, vive por ti, mas também te sopra, também se enche de pesadelos, não faz nada que a ti diga respeito e baixa os braço fugindo cobardemente a uma boa luta. O meu amor vibra quando estás e fica dormente e distraído quando te vais embora, esperando que nunca mais voltes, mas ansiando palpitante o teu regresso. O meu amor é esquisito, mas existe, acreditas?

Autor do texto: António Catela

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